Estágio e aprendizagem: os cuidados que o RH precisa tomar para evitar irregularidades

Decisão divulgada pelo TST reforça que a formação precisa acontecer na prática. Contratos e documentos não substituem o acompanhamento de estudantes e aprendizes.

Contratar estagiários e aprendizes é uma oportunidade de desenvolver talentos e abrir portas para quem está começando a carreira. Para a empresa, essa experiência também pode ajudar a formar futuros profissionais.

Mas essas contratações exigem atenção: as atividades realizadas precisam corresponder à proposta de formação. Quando a rotina se afasta dessa finalidade, surgem riscos trabalhistas.

Sumário

Em notícia divulgada em 8 de outubro de 2026, o Tribunal Superior do Trabalho informou que sua Primeira Turma manteve uma decisão que anulou contratos de aprendizagem e estágio e reconheceu um único vínculo de emprego de uma trabalhadora. O caso envolve a Tobras Distribuidora de Combustíveis, de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A decisão não criou uma nova lei: ela trata da aplicação das regras existentes ao caso analisado.

O que aconteceu no caso?

Segundo a notícia do TST, reproduzida por outros portais, a jovem foi contratada como aprendiz durante um ano e, depois, como estagiária por mais um ano. Na ação, afirmou que desempenhava atividades de assistente e analista administrativa.

A Justiça Regional concluiu que os contratos não cumpriam suas finalidades educativas. No estágio, foram identificadas falhas no acompanhamento e na avaliação pedagógica relacionados ao curso da estudante.

O TST manteve o resultado. O relator destacou que rever as conclusões do Tribunal Regional exigiria uma nova análise dos fatos e das provas, o que não era permitido naquela fase do recurso.

Para o RH, o caso traz uma pergunta importante: a rotina oferecida pela empresa corresponde à formação prevista na contratação?

Estágio e aprendizagem são modalidades diferentes

Apesar de ambos terem uma finalidade de formação, estágio e aprendizagem possuem regras próprias.

ModalidadeComo funciona
EstágioÉ uma atividade educativa supervisionada, ligada à formação do estudante. Não gera vínculo de emprego quando os requisitos legais são cumpridos.
AprendizagemÉ um contrato de trabalho especial, com registro e direitos trabalhistas, que combina formação teórica e atividades práticas.

Essa diferença evita uma confusão comum: o aprendiz já possui uma relação de emprego, embora em uma modalidade especial. No estágio regular, não há vínculo empregatício.

No estágio, a supervisão precisa ser efetiva

A Lei nº 11.788/2008 exige matrícula e frequência regular, termo de compromisso firmado com participação da instituição de ensino e compatibilidade entre as atividades realizadas e as previstas no documento.

Também deve existir acompanhamento efetivo de um professor orientador e de um supervisor da empresa. Os relatórios de atividades precisam ser enviados à instituição de ensino em intervalos não superiores a seis meses.

A lei prevê que o descumprimento dos requisitos pode caracterizar vínculo de emprego para fins trabalhistas e previdenciários. 

Na gestão diária, vale observar se o estudante recebe explicações, orientação e retorno sobre o que faz. Ter um supervisor indicado no documento ajuda a organizar a responsabilidade, mas é preciso que ele tenha condições de acompanhar o aprendizado.

Uma tarefa administrativa pode fazer parte de um estágio. O ponto de atenção é sua relação com o curso, com o plano de atividades e com o acompanhamento oferecido.

Na aprendizagem, trabalho e formação precisam caminhar juntos

O artigo 428 da CLT estabelece que o contrato de aprendizagem deve assegurar formação técnico-profissional organizada, compatível com o desenvolvimento do aprendiz.

Sua validade envolve registro na carteira de trabalho, inscrição em programa de aprendizagem e observância das exigências escolares aplicáveis. O Ministério do Trabalho e Emprego mantém o cadastro das entidades habilitadas e dos cursos de aprendizagem profissional. 

O aprendiz tem direitos como remuneração, 13º salário, férias, vale-transporte e FGTS com alíquota de 2%. A formação teórica é parte da contratação e precisa ser considerada na organização da rotina. 

Por isso, a liderança deve conhecer o programa e respeitar o tempo destinado às atividades educativas. O planejamento da equipe precisa permitir que o jovem participe da formação sem ser tratado apenas como alguém disponível para atender demandas do setor.

Sinais que merecem uma revisão do RH

Algumas situações justificam uma verificação mais próxima:

  • O supervisor não consegue explicar o que o estudante está aprendendo.
  • As tarefas mudaram, mas o plano de atividades continua igual.
  • A liderança desconhece o curso ou o programa de aprendizagem.
  • Os registros de acompanhamento estão atrasados ou incompletos.
  • A rotina deixa pouco espaço para orientação e desenvolvimento.
  • O jovem assume demandas sem suporte adequado.

Esses sinais são pontos de partida para uma revisão interna. A avaliação deve considerar os documentos, as atividades realizadas e o contexto de cada contratação.

Checklist prático para organizar a gestão

O RH pode começar com cinco verificações:

  1. Confira a modalidade: identifique quais regras se aplicam ao estágio e quais se aplicam à aprendizagem.
  2. Revise os documentos: confira assinaturas, matrícula, programa de formação, responsáveis e datas.
  3. Converse com os gestores: verifique o que o jovem realmente faz e quem acompanha suas atividades.
  4. Organize o acompanhamento: mantenha uma agenda de avaliações, relatórios e contato com a instituição de ensino ou entidade formadora.
  5. Trate as divergências: envolva os responsáveis pela formação e o jurídico para definir os ajustes necessários.

A revisão deve acontecer durante a contratação. Esperar o encerramento para descobrir que o acompanhamento não foi realizado reduz a possibilidade de corrigir a experiência.

Tecnologia pode apoiar a organização, mas a formação depende das pessoas

Uma rotina digital pode facilitar a consulta a documentos, o controle de datas e a comunicação entre os envolvidos. Isso ajuda o RH a localizar informações e acompanhar pendências.
Ainda assim, documentos organizados não substituem a orientação. O desenvolvimento exige participação da liderança, contato com a instituição responsável e atividades coerentes com a proposta educativa.

O que fica de atenção para o RH?

A decisão divulgada pelo TST reforça a importância de aproximar o contrato da rotina real.

Estágio e aprendizagem podem construir boas experiências para a empresa e para quem inicia a carreira. Para isso, o RH precisa acompanhar a formação, orientar os gestores e revisar possíveis divergências ao longo do caminho.

A contratação abre a porta. O acompanhamento transforma essa oportunidade em aprendizado.

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